Às 15:00 de um sábado nublado, Paulo, 15 anos, escuta seu professor de inglês tecer comentários sobre a vida. Alguns mestres concentram-se em apenas ensinar o material para o qual são pagos, mas – no caso do garoto –, ele, infelizmente, não tem essa sorte.
Ao ler um dos exercícios relacionados à colocação de prefixos e sufixos na língua inglesa, o professor explicou, à sua maneira, o significado da palavra “hipocrisia”. Ele, um rapaz alto e magro, pôs a mão na cintura, fez uma cara de insatisfação e sinalizou que as pessoas com sorrisos cotidianos falsos são nojentas e, consequentemente, hipócritas.
Paulinho, sempre atento a frases idiotas proferidas por boa parte dos mestres mal remunerados e desinteressados, perguntou se não poderíamos relacionar o significado dito com a palavra “política”.
O nome do senador José Sarney surgiu na boca dos demais alunos como uma rajada de metralhadora. Dois jornalistas citaram os mais recentes escândalos em Brasília e duas donas de casa reiteraram as frases por meio de recordações do Jornal Nacional. O programador resolveu ficar em silêncio e o bombeiro falou uma frase clichê benéfica ao país.
Paulinho, neste instante, pediu a palavra aos demais participantes. Política não se tratava apenas dos desvios de verbas públicas produzidos por uma pseudoelite tupiniquim. Em seu entender, o ato de dialogar e chegar a conclusões essenciais não apenas no âmbito nacional, mas nas pequenas relações cotidianas, poderia ser considerado “política”. E, para atingir este objetivo, sorrisos envoltos em mentiras eram necessários.
O professor não concordou, a sala preferiu ficar em silêncio. A aula terminou minutos depois. Aluno e mestre cumprimentaram-se e desejaram uma boa semana um ao outro. Ambos sorriram. O primeiro acredita ser político. Será que o segundo admitiria ser um hipócrita?
1 Comentário
Outubro 9, 2009 às 2:39 pm
Legal o post…só o final que eu achei q poderia ser mais ácido =P
[]s