Thomas Steinberg, 33 anos, descrente em signos, fases da lua ou mesmo na existência de algo maior do que seus um metro e noventa e sete de altura. Depois de cinco anos de casado, resolveu enfurnar-se em um Monza 1984/1985, unicamente para não pagar IPVA, e viajar um ano pelo país.
Ao retornar, quase sem economias, dedicou-se à publicidade, ramo em que criatividade e competição caminham pararelos e, em um Congresso sobre Expressionismo Alemão, conheceu Anita, 22 anos, menina simples e dedicada cujo objetivo era tornar-se artista plástica e viver unicamente em prol da arte.
Já estava acostumado com mulheres de pensamentos completamente discrepantes aos seus. Karina, sua ex-mulher, pertencia a três organizações sociais, além de, na visão de Thomas, torrar seu dinheiro todo final de ano, seja presenteando os filhos dos filhos dos vizinhos ou em doações à metade das instituições filantrópicas em São Paulo.
Sendo assim, quando Anita sorriu-lhe no bar dizendo que, em alguns anos, se imaginava envolta de diversas pinturas em seu pequeno apartamento no centro, Thomas já previa uma situação semelhante à anterior. Para qualquer imprevisto, o mapa da última viagem continuava no porta-luvas. De qualquer forma, frente aos olhos azuis da jovem artista, era difícil negar-lhe algum pedido.
Contudo, com um olhar atônito, semelhante ao dos personagens de Nelson Rodrigues, mas, ainda, sem previsão de traições ou assassinatos, os pedidos praticamente não existiam. Sem contar a primeira vez em que saíram, Anita fazia questão de repartir a conta em todos os lugares, do bar ao motel, além de dividir muitos dos afazeres do dia a dia.
Thomas poderia deixar seu orgulho prevalecer e se sentir desconfortável com a situação – o que, de início, realmente aconteceu frente aos olhares de repulsa advindos de garçons por toda São Paulo –, porém, no final do mês, ao acessar o saldo de sua conta bancária, ele não conseguia esconder um sorriso bobo de satisfação. Foram cinco longos anos sem essa sensação.
Neste período, amor e dinheiro eram indissociáveis, sendo o primeiro dependente do outro. Uma vida burguesa nada moderna criava em Thomas uma situação de enclausuramento e desenvolvia um sentimento de culpa a cada momento em que não agradasse à sua ex-esposa com ornamentos fúteis e desnecessários.
Ao casar-se com Anita, três anos depois do sorriso do bar, a carreira desta já estava em ascensão, com seus quadros sendo expostos em espaços internacionais e cobiçados em diversos leilões. Após o nascimento do primeiro filho, ao trocarem de apartamento, Thomas decepcionou-se ao aceitar o dinheiro advindo da venda do primeiro quadro de sua mulher. Este representava a dedicação de Anita na busca pelos seus sonhos. A obra havia sido arrematada por um aristocrata alemão que já considerava a jovem uma artista completa.
Entretanto, não há óbice para se criarem novos sonhos. Anita proferiu estes dizeres, sorriu-lhe com atenção e se dedicou ao filho que se arriscava engatinhando pelos cantos do imóvel. Thomas, neste instante, lembrou-se de como lhe fez bem descartar o mapa de viagem do porta-luvas. E nunca se arrependeu disso.