janeiro 27, 2010

Cães

Aline comprou-o quando completou três meses de vida. Era malhado, peludo e bobão, em sua visão: perfeito. Nos primeiros dias em casa, enquanto a dona tricotava cachecóis para as amigas do clube de literatura, Oscar acomodava-se no sofá e assistia à sessão da tarde.

Não há nenhuma explicação decente para seu nome, apenas a percepção de que chamá-lo por meio de palavrões, como quando defecava no tapete da sala, não seria bem visto pelos vizinhos. Em suas tardes de dobradinha ração-tv, Oscar afeiçoou-se a diferentes cães. Beethoven e K9 estavam entre os seus preferidos.

No entanto, um cão sem nome pertencente a um filme sem roteiro deixou-o interessado. Durante a película, o beagle buscava o jornal de seu dono. Este mirava-o nos olhos, ele corria, pulava a portinha norte-americana para cães, chegava ao jardim, corria para morder o jornaleiro e, finalmente, levava o jornal para dentro da residência.

Assim, com este ato, Oscar apaixonou-se. Durante meses, quando o vizinho do apartamento ao lado destrancava a porta, seja para ir ou voltar do trabalho, o cão acertava com uma cabeçada a porta do próprio apartamento. À medida em que o tempo passava, as cabeçadas ficaram mais fortes e a preocupação de Aline ficava maior. Infelizmente, enquanto as crianças da década de 1990 observavam anualmente novos e exóticos animais protagonizando filmes, Aline dedicava-se a aulas de artesanato com sua mãe e irmã.

Decidida, Aline colocou uma almofada laranja, bastante desbotada, para salvar a vida de seu animal. Tendências suicidas, imaginava, mas, gastar dinheiro com um psicólogo para animais estava fora de cogitação. De qualquer forma, Oscar simplesmente retirava a peça e voltava a bater na madeira. A dona até cogitou em enviar uma carta para aqueles programas televisivos que resolvem problemas com animais, porém, percebeu a tempo que seria ridículo. Hipnose, também, não surtiria efeito.

Em um passeio com as amigas no final de semana, Aline bebeu além da conta e terminou a noite no sofá da casa da Gigi. A madrugada fornecia ótimos bate-papos sobre filmes, livros e pessoas. Os americanos, vez ou outra, eram citados. Gigi, graças à família, era uma bem-sucedida advogada trilingue de uma multinacional da terra do Tio Sam. Ninguém nunca soube como as duas ficaram amigas, mas isto não vem ao caso.

Quando Gigi comentou do perfil das casas americanas e da liberdade de seus cães, a “portinha” veio à mente de Aline. A idéia, a seu ver, era genial, mas não a ponto de fazê-la correr da casa da amiga em plena madrugada para comprar e instalar uma “portinha” em seu apartamento. Mesmo se quisesse, a ressaca não permitiria.

Contudo, na manhã seguinte, Aline instalou a tão sonhada porta de Oscar. Em seguida, esperou atentamente para ver o movimento do mesmo. Ela sabia que as idas e vindas do seu vizinho atiçavam o jovem cão. Sendo assim, às oito da manhã, escutou-se o barulho de um molho de chaves. Oscar correu e, pela primeira vez, saltou através da porta.

Jornal? Não tinha. Aline somente assinava revistas de tricô e, ainda assim, retirava-as direto com o zelador. No entanto, certa imagem rodeava os pensamentos do animal. Oscar foi expulso do prédio após morder, não uma, mas três vezes, as pernas do vizinho. Pegou o jornaleiro em vez do jornal.

janeiro 24, 2010

Sem-vergonha

– É a primeira vez que ele pratica este ato? Bem, quero dizer, dessa maneira espalhafatosa. Não sei se seria a palavra correta…

– Não, tudo bem… Então, não é a primeira vez. Já fomos a festas de família, casamentos, bar mitzva, bares, shows… No entanto, assim, desse jeito… doutor, por favor…

– Certo, já conversarei com ele. Cristina, peça para o senhor Eduardo entrar.

– Claro, doutor. Eduar…

– Carina, o que acontece?  Consultei o doutor Saulo há uma semana,  por que estamos aqui?

– Senhor Eduardo, peço que se sente nesta poltrona. Vocês preferem dialogar comigo individualmente ou como casal?

– Perdoe-me, não vou me sentar até entender as razões de estar aqui. Acabamos de voltar de um show, sei que bebi algumas cervejinhas, talvez além da conta, contudo, não há motivo para visitar um psicólogo. O que fiz afinal? São quase 11 da noite, Carina…

– Du, no meio do show surgiram alguns movimento estranhos que nunca havia visto. Foi estranho. As pessoas te olhavam, algumas se aproximavam e não sabia o que fazer.

– Carina, estamos aqui porque resolvi dançar?

–Aquilo não era dançar…

– Por favor, compreendo que se assuste em ver estilos de dança diferentes depois de ter estudado balé por doze anos, mas, trazer-me a um consultório?

– Não se exalte, Du. Porém, aquilo, definitivamente, não era dançar… Você nunca dançou em quatro anos de casados!

– Dancei! Ora bolas, conviva com isso. Doutor, o que gerou essa vinda ao seu consultório foi…

Sem música, uma série de passos de samba mesclados com um toque mais rock’n roll envolveu o ambiente. Não que o Eduardo dominasse o gingado realizado, longe disso, no entanto, percebia-se um sorriso sem-vergonha de quem não tem mais vergonha de colocar em ação seus desejos.

– Du, já foi mais do que o suficiente. Doutor…

– Carina, desculpe-me em dizer: não há problemas com o seu marido. Contudo, para ambos dormirem em paz, o Eduardo frequentará aulas de dança por noventa dias, duas vezes por semana. Depois desse período, gostaria que agendassem novamente um horário, de preferência à tarde ou pela manhã.

– Doutor, não vejo necessidade de aprender a …

Antes de terminar a frase, Carina olhou-o de soslaio. Na linguagem gestual do casal, o ato poderia ser entendido como um “continue, espertão, sofá é pouco, coloco-o na portaria do prédio…”.

– … dançar apenas por noventa dias, penso em dedicar o semestre à dança!

Em casa, mesmo com o acordo, a imagem do show não desaparecia da mente de Carina. Por alguns dias, Eduardo dormiu no sofá. Depois da primeira semana de aulas, marido e mulher voltaram a dividir a mesma cama.

janeiro 16, 2010

Quiromancia

Estralou os dedos da mão duas vezes. Hábito não muito saudável, reconhece sem a mínima contestação, mas que lhe oferece inigualável prazer. Pressiona inicialmente o dedão e, religiosamente,  segue pelo indicador, o médio, o anelar e o mindinho. Às vezes, em dias de plantão no trabalho, inverte a ordem entre os dois últimos. É fato que sua mão reflete agruras. Pequenas cicatrizes que confidenciam um trabalho manual diário podem ser vistas à distância. Estas tornam-se mais visíveis quando o sol do final da tarde atinge as janelas do trem. No lugar em que se encontra sentado, um fio de luz distingue uma cicatriz das demais. Ela inicia-se atrás do dedão e transpassa as linhas da vida e da cabeça.

Deixou a chave em uma mesa próxima à porta, libertou-se da suada camisa branca e deitou-se no sofá. No curto corredor entre a entrada e a sala abandonou meias e sapato. A noite chegara e era possível observar poucas estrelas pelo céu. O cheiro de chuva também aumentava à medida em que as horas passavam. Em alguns instantes, a ventania deslocava a cortina da sala.

Ao ouvir o som de um molho de chaves, fechou os olhos. Em seguida, observou as palmas das mãos. Não acreditava em astrologia ou vidência. Contudo, depois de servir de cobaia a uma professora de química no terceiro colegial, começou a prestar mais atenção nas principais linhas e desenhos. Sua linha do coração começava abaixo do dedo indicador e sua linha da cabeça era uma linha curva e angulada.

A esposa, ao passar pelo corredor, tropeçou em um par do sapato anteriormente descartado. Sem delicadeza, colocou-o em um canto. Ao deixar sua bolsa e alguns papéis na mesa, reparou no camisa branca e jogou-a em outro canto para ser lavada. As meias do corredor foram recolhidas instantes depois.

Quando dirigia-se ao marido com inúmeras reclamações em mente, tropeçou em uma pétala de flor e em outra e em outra… e logo viu um singelo caminho formado. Mais alguns passos, um buquê de rosas encontrava-se próximo ao sofá. No cartão, “te amo”.  Talvez, no terceiro colegial, a professora de química estivesse certa.

janeiro 10, 2010

Adeus à Liberdade Ilimitada

“Fazer arte é, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil do que costumava ser. As mudanças radicais na arte e na sociedade que se iniciaram nos primeiros anos do século XX geraram um novo tipo de artista, cuja primeira obrigação era inventar ou descobrir uma nova identidade. [...] A liberdade ilimitada do artista moderno tem sido um fardo interminável. Se a arte pode ser qualquer coisa, por onde começar?” (Calvim Tomkins, A Vida dos Artistas)

janeiro 2, 2010

Confraternizações

Eduardo não se importa com as festividades de fim de ano. O Natal e o Ano Novo não têm a mesma importância do que, por exemplo, o primeiro capítulo da nova temporada de uma série da qual ele e sua esposa são fãs ou um lançamento nos cinemas de algum filme esperado. Quando resolve passear e vê o shopping lotado, sabe que é fim de ano. Contudo, mesmo tendo como objetivo refugiar-se em uma bolha e reaparecer no mundo no primeiro dia útil do próximo ano, sua esposa, Carina, afasta-o da idéia. Para ela, as confraternizações familiares são importantíssimas, símbolos da união que Deus sempre desejou. Eduardo, cético em relação à importância do evento e de Deus, acredita que estes encontros servem para os mais bem-sucedidos economicamente da família esbanjarem seus feitos e opinarem sobre a vida alheia. Professor de história em uma universidade paulista sem nome, Eduardo já sabe que será o principal alvo. As duas irmãs de Carina já estão casadas há anos. A primeira, Bruna, já tem duas filhas e o marido é economista do Banco Central. A segunda, Amélia, está grávida de oito meses e o mais recente marido – ela separou-se legalmente no começo do ano – é engenheiro químico. Quando Beto e Fernando oferecem uma taça de vinho e convidam-no a sentar no sofá, faz-se uso de omissões e diferentes interpretações para as histórias contadas por sua mulher em outras reuniões. A universidade carrega uma imagem negativa no mercado? Depende do curso. Destacamo-nos na área de história justamente por nossos pesquisadores. Claro que ser um destaque pela pesquisa não dá visibilidade à Instituição. Pronto, primeira pergunta respondida. E em relação à crianças? A Carina não te pressiona? Concordamos que filhos somente depois de estabilizados financeiramente, talvez em alguns anos. Terminado. Na varanda, Carina e as irmãs conversam sobre os filhos e a data em que o bebê de Amélia nascerá. Eduardo, vez ou outra,  aparece e discretamente lança seu olhar de “então, vamos embora de uma vez?” à mulher. Ela, em resposta, sinaliza com a mão algo semelhante a “faço você vir aqui apenas duas vezes por ano, Natal e Ano Novo, não enche”. À meia-noite do Ano Novo, Eduardo é o primeiro a se levantar e cumprimentar a todos. Tornou-se a alegria da casa. A mãe de Carina deixa em suas mãos a champanhe e ele faz o brinde, deseja bons votos e, em seguida, abraça a todos carinhosamente. Sem dúvida, isso lhe faz feliz. Não ter de vê-los por 11 meses e três semanas é a maior alegria que pode sentir. Além disso – aprendizado dos últimos anos –, deixa o carro na esquina da rua. Assim, não precisa esperar a bondade de nenhum familiar para retirar o carro do caminho. Em meia-hora, despede-se de todos, faz novamente votos de um ótimo ano, busca a mulher, dribla a sogra, separa doces e salgadinhos, recupera o vinho intocado e retorna para casa. Nada como o lar e, contanto que não tenha uma maratona de Friends, o primeiro final de semana do ano será perfeito.

dezembro 26, 2009

O Mar e as Ondas

Constipado. Um tanto cansado e desanimado. As pernas doem por caminhar de esquina em esquina. Um calor sufocante e certa dor de cabeça incomodam-no ao menor movimento. Atravessar a rua, um martírio. Em sua carreira, o ato de esperar na faixa de pedestres tornou-se inconveniente, contrário à velocidade exigida pelo seu serviço. O calor aumenta pelo uso de uma minimamente afrouxada gravata e de uma camisa social. O sapato machuca seus pés. No rádio, tem início o solo de sua música favorita. De repente, um leve sorriso. Talvez o dia continue medíocre após os dois minutos restantes da canção, mas, no fim das contas, a vida não é justamente isso?

novembro 28, 2009

The Muppets tocando Bohemian Rhapsody

novembro 28, 2009

O Azar

O azar acorda pela manhã e, em meio à refeição matinal, decide persegui-lo.  Ele não protesta ao derrubar metade da xicará de café na camisa, perder a condução, terminar um namoro ou ao obter uma péssima nota em uma prova decisiva. Mantém um olhar sereno e segue adiante. Sempre chove nestes dias.

outubro 25, 2009

Cigarro, Misto-Quente e Café

Fellini, Antonioni e Godard cheiram, respectivamente, à cigarro, misto-quente e café. Em uma pequena loja de DVDs na Rua das Palmeiras, divisa entre Campos Eliseos e Higienópolis, ao lado de uma padaria bastante movimentada e de uma Igreja universal, obras destes três diretores são vendidas a preços acessíveis. Oito e meio, a primeira película no alto da prateleira, tem seus pulmões afetados graças a uma senhora de meia-idade, de cabelos loiros tingidos, que termina seu maço de Malboro Light na mesma velocidade em que a mesa termina o prato repleto de petiscos. Blow Up, no mesmo instante, circula entre as mãos de um grupo de jovens (pseudo)intelectuais à la Los Hermanos que deixam marcas de óleo no plástico protetor do DVD. La Chinoise, dos três, parece ser a obra com mais sorte. O filme de Jean- Luc Godard encontra-se com uma senhora de cabelos brancos, acompanhada por marido e filho, que bebe uma xicará média de café expresso e discute sobre seus problemas diários. A criança, um menino que aparenta ter seis anos, observa a capa do DVD com atenção e curiosidade. Do cheio de café passamos para pequenas mãos meladas de sorvete. O francês está tão sujo quanto seus colegas, isso é certo. No entanto, ao contrário da senhora dos cigarros e dos barbudos com pose de sociólogos, a criança não cogita devolver o DVD à prateleira, prende-o ao corpo como se fosse seu melhor presente de Natal.

outubro 25, 2009

Mestre ou Comediante?

O gordo bonachão, mestre em inúteis lições de moral e pertencente a algum clube de comédia stand up formado por professores de direito, apresentou-se, uma vez mais, em seu singelo palco. O fato de ter estudado filosofia não necessariamente o faz um filósofo. Se quero pensamentos que exijam uma reflexão cotidiana, lerei Nietzsche e Schopenhauer. O aspecto psicológico de ambos propicia uma vida inteira de lições acerca da espécie humana. Em contrapartida, um comediante de terno e gravata que explora o pós-modernismo embasado em uma perspectiva pseudocapitalista já ultrapassada – frases como “não vá ao Mc Donalds e boicote a Starbucks” escutamos desde pequeno, todavia, a sociedade tupiniquim tem problemas muito mais graves sobre os quais debater –, faz verdadeiros filósofos rirem e cogitarem um excelente futuro no que diz respeito a um ambiente de palcos, platéias e piadas.