Fellini, Antonioni e Godard cheiram, respectivamente, à cigarro, misto-quente e café. Em uma pequena loja de DVDs na Rua das Palmeiras, divisa entre Campos Eliseos e Higienópolis, ao lado de uma padaria bastante movimentada e de uma Igreja universal, obras destes três diretores são vendidas a preços acessíveis. Oito e meio, a primeira película no alto da prateleira, tem seus pulmões afetados graças a uma senhora de meia-idade, de cabelos loiros tingidos, que termina seu maço de Malboro Light na mesma velocidade em que a mesa termina o prato repleto de petiscos. Blow Up, no mesmo instante, circula entre as mãos de um grupo de jovens (pseudo)intelectuais à la Los Hermanos que deixam marcas de óleo no plástico protetor do DVD. La Chinoise, dos três, parece ser a obra com mais sorte. O filme de Jean- Luc Godard encontra-se com uma senhora de cabelos brancos, acompanhada por marido e filho, que bebe uma xicará média de café expresso e discute sobre seus problemas diários. A criança, um menino que aparenta ter seis anos, observa a capa do DVD com atenção e curiosidade. Do cheio de café passamos para pequenas mãos meladas de sorvete. O francês está tão sujo quanto seus colegas, isso é certo. No entanto, ao contrário da senhora dos cigarros e dos barbudos com pose de sociólogos, a criança não cogita devolver o DVD à prateleira, prende-o ao corpo como se fosse seu melhor presente de Natal.
Outubro 25, 2009
Mestre ou Comediante?
O gordo bonachão, mestre em inúteis lições de moral e pertencente a algum clube de comédia stand up formado por professores de direito, apresentou-se, uma vez mais, em seu singelo palco. O fato de ter estudado filosofia não necessariamente o faz um filósofo. Se quero pensamentos que exijam uma reflexão cotidiana, lerei Nietzsche e Schopenhauer. O aspecto psicológico de ambos propicia uma vida inteira de lições acerca da espécie humana. Em contrapartida, um comediante de terno e gravata que explora o pós-modernismo embasado em uma perspectiva pseudocapitalista já ultrapassada – frases como “não vá ao Mc Donalds e boicote a Starbucks” escutamos desde pequeno, todavia, a sociedade tupiniquim tem problemas muito mais graves sobre os quais debater –, faz verdadeiros filósofos rirem e cogitarem um excelente futuro no que diz respeito a um ambiente de palcos, platéias e piadas.
Outubro 25, 2009
Memória?
Passam-se os anos. A energia esvainece-se. Da força e da vitalidade da juventude restam apenas fragmentos. Em determinado momento, a relação entre o corpo e a mente sofre alterações. O ato de tomar uma xicará de café torna-se uma batalha entre nervos e músculos e os passeios dominicais ao parque inesquecíveis. O seio familiar divide-se entre os que optam por devolver todo o carinho transmitido ao longo das estações e os que vivem seus dias na essência do individual. O sol, antes convidativo, raramente é visto. Nesse interím – por meio de uma triste e inoportuna pergunta e sem questionar aos terceiros – qual seria a real necessidade da memória?
Outubro 20, 2009
Da Dedicação de Bresson
Escavando a pilha de asneiras que a sociedade joga sobre os mortos, podemos encontrar bastante coisa útil. Entre o montante encontra-se discursos vazios, ideologias baratas, elogios desnecessários. Ao mesmo tempo, por meio de uma análise minuciosa, é possível resgatar o estudo, o esforço e a dedicação.
Em uma recente edição da revista Bravo, diferentes fotógrafos comentaram sobre a técnica e o estilo de Henry Cartier-Bresson. Os elogios repetiam-se pelas colunas da reportagem. Ou os entrevistados tinham pouquíssima criatividade e um vocabulário à la jardim de infância ou realmente fracas definições como “decisivo” e “incomparável” encaixam-se por unânimidade ao fotógrafo francês.
Bresson, mais do que um exímio fotojornalista, foi um homem que desde pequeno possuía uma paixão. Do dia em que ganhou uma máquina fotográfica Box Brownie à sua participação na Segunda Guerra Mundial já há uma experiência de vida inigualável. Sua carreira nas revistas Life e Vogue com certeza fortaleceram sua perspectiva e técnica.
No entanto, quantos não devem ter sido os filmes queimados ou as fotos descartadas pelos inúmeros editores ao longo da carreira do francês? Bresson, como todos, era um ser humano. Convivia com altos e baixos. Dedicou-se diariamente para obter excelência. Contudo, não significa que, desde os tempos da primeira 35mm, suas imagens já tinham seu ponto de vista especialíssimo.
Outubro 16, 2009
Vel
Meiga, simpática e inteligente. Pequena e magra. É o centro das atenções quando se propõe a conversar. Usa sempre calça jeans, tênis branco e rosa, blusa preta simples e jaqueta escura. Tem voz macia, jovial, infantil. Religiosamente comparece ao mesmo lugar. Cumprimenta a todos e distribui sorrisos. Veste um vel nada tradicional. Cheira a bebida.
Outubro 11, 2009
O Precursor da Elegância Fotográfica
Woody Allen como Charlie Chaplin
Truman Capote
Kate Moss
O fotógrafo de moda Irving Penn morreu em agosto, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade. Desde membros de tribos da Nova Guiné a hippies de São Francisco, Penn fotografou um pouco de tudo, mas foi o seu cunho de simplicidade, elegância e minimalismo que emprestou à fotografia de moda que o distinguiram no meio artístico.
Via Última Hora
Outubro 10, 2009
Da Confiança e do Individualismo
“Individualista, eu? Não, sou apenas uma pessoa autoconfiante”. Escutei essa frase hoje, em inglês, de um jornalista. Alto, relativamente gordo e com pinta de coronel nordestino, seu pensamento demonstra com clareza o mal tupiniquim, além de tentar traçar um pararelo – estúpido por sinal – entre individualismo e confiança.
Acerca do invidualismo à brasileira, a família é o termômetro da idiotice. Se tem um carro, precisa de mais dois: um para os dias de rodízio e outro para o filho que passou no vestibular. Se tem uma televisão, precisa de outras para o quarto do casal, dos filhos, para a empregada e para o cachorro. Se tem um celular, compra mais dois, um para o trabalho e outro para o/a amante. Em suma, o ápice do consumismo voraz.
Em consequência, o trânsito recebe por dia uma frota de cerca de mil e quinhentos veiculos, segundo dados do Detran-SP. Além disso, a conta de luz e a desunião familiar sofrem aumentos evidentes. A sala de estar, que até recentemente era o ambiente preferido para a reunião pós-jantar com o objetivo de assistir e comentar ao noticiário noturno, tornou-se uma pequena prisão, cujos carcereiros são Bob Esponja e Pânico na TV.
Caso concorde e tenha vontade de seguir aos conselhos do coronel-jornalista altamente globalizado por ter estudado, por um mês, inglês em uma cidadezinha obscura do Canadá, você será apenas mais um brasileiro estúpido, que confunde conceitos e não pensa em nada de útil para contribuir com a sociedade.
Outubro 5, 2009
Da Hipocrisia
Às 15:00 de um sábado nublado, Paulo, 15 anos, escuta seu professor de inglês tecer comentários sobre a vida. Alguns mestres concentram-se em apenas ensinar o material para o qual são pagos, mas – no caso do garoto –, ele, infelizmente, não tem essa sorte.
Ao ler um dos exercícios relacionados à colocação de prefixos e sufixos na língua inglesa, o professor explicou, à sua maneira, o significado da palavra “hipocrisia”. Ele, um rapaz alto e magro, pôs a mão na cintura, fez uma cara de insatisfação e sinalizou que as pessoas com sorrisos cotidianos falsos são nojentas e, consequentemente, hipócritas.
Paulinho, sempre atento a frases idiotas proferidas por boa parte dos mestres mal remunerados e desinteressados, perguntou se não poderíamos relacionar o significado dito com a palavra “política”.
O nome do senador José Sarney surgiu na boca dos demais alunos como uma rajada de metralhadora. Dois jornalistas citaram os mais recentes escândalos em Brasília e duas donas de casa reiteraram as frases por meio de recordações do Jornal Nacional. O programador resolveu ficar em silêncio e o bombeiro falou uma frase clichê benéfica ao país.
Paulinho, neste instante, pediu a palavra aos demais participantes. Política não se tratava apenas dos desvios de verbas públicas produzidos por uma pseudoelite tupiniquim. Em seu entender, o ato de dialogar e chegar a conclusões essenciais não apenas no âmbito nacional, mas nas pequenas relações cotidianas, poderia ser considerado “política”. E, para atingir este objetivo, sorrisos envoltos em mentiras eram necessários.
O professor não concordou, a sala preferiu ficar em silêncio. A aula terminou minutos depois. Aluno e mestre cumprimentaram-se e desejaram uma boa semana um ao outro. Ambos sorriram. O primeiro acredita ser político. Será que o segundo admitiria ser um hipócrita?
Outubro 2, 2009
Do Ensino Universitário
Em o que um carro de som financiado por certa (des)união contribuiria para a melhoria do ensino em uma universidade?
Tente pensar em algo útil.
Em nada.
Outubro 1, 2009
Do Ego dos Doutores
Alto, gorducho, bonachão e professor de direito. Entra na sala com um bordão velho, um tanto sem graça. Sorri para as menininhas sem vontade e cérebro, arrisca algumas gírias com os supostos “manos” e senta em cima da mesa. As mãos seguram firmemente um livro de capa azul que, à distância, parece ter entre 350 e 400 páginas. Fala sobre seu período escolar, sobre os sobrinhos, as namoradas, os jogos de futebol, as drogas, as piadas sem graça, sexo, política, turminhas de faculdade e lições de moral. Aliás, despende horas discursando sobre este último assunto. Termina a aula. Não abre o livro.
Woody Allen como Charlie Chaplin
Truman Capote
Kate Moss