Aline comprou-o quando completou três meses de vida. Era malhado, peludo e bobão, em sua visão: perfeito. Nos primeiros dias em casa, enquanto a dona tricotava cachecóis para as amigas do clube de literatura, Oscar acomodava-se no sofá e assistia à sessão da tarde.
Não há nenhuma explicação decente para seu nome, apenas a percepção de que chamá-lo por meio de palavrões, como quando defecava no tapete da sala, não seria bem visto pelos vizinhos. Em suas tardes de dobradinha ração-tv, Oscar afeiçoou-se a diferentes cães. Beethoven e K9 estavam entre os seus preferidos.
No entanto, um cão sem nome pertencente a um filme sem roteiro deixou-o interessado. Durante a película, o beagle buscava o jornal de seu dono. Este mirava-o nos olhos, ele corria, pulava a portinha norte-americana para cães, chegava ao jardim, corria para morder o jornaleiro e, finalmente, levava o jornal para dentro da residência.
Assim, com este ato, Oscar apaixonou-se. Durante meses, quando o vizinho do apartamento ao lado destrancava a porta, seja para ir ou voltar do trabalho, o cão acertava com uma cabeçada a porta do próprio apartamento. À medida em que o tempo passava, as cabeçadas ficaram mais fortes e a preocupação de Aline ficava maior. Infelizmente, enquanto as crianças da década de 1990 observavam anualmente novos e exóticos animais protagonizando filmes, Aline dedicava-se a aulas de artesanato com sua mãe e irmã.
Decidida, Aline colocou uma almofada laranja, bastante desbotada, para salvar a vida de seu animal. Tendências suicidas, imaginava, mas, gastar dinheiro com um psicólogo para animais estava fora de cogitação. De qualquer forma, Oscar simplesmente retirava a peça e voltava a bater na madeira. A dona até cogitou em enviar uma carta para aqueles programas televisivos que resolvem problemas com animais, porém, percebeu a tempo que seria ridículo. Hipnose, também, não surtiria efeito.
Em um passeio com as amigas no final de semana, Aline bebeu além da conta e terminou a noite no sofá da casa da Gigi. A madrugada fornecia ótimos bate-papos sobre filmes, livros e pessoas. Os americanos, vez ou outra, eram citados. Gigi, graças à família, era uma bem-sucedida advogada trilingue de uma multinacional da terra do Tio Sam. Ninguém nunca soube como as duas ficaram amigas, mas isto não vem ao caso.
Quando Gigi comentou do perfil das casas americanas e da liberdade de seus cães, a “portinha” veio à mente de Aline. A idéia, a seu ver, era genial, mas não a ponto de fazê-la correr da casa da amiga em plena madrugada para comprar e instalar uma “portinha” em seu apartamento. Mesmo se quisesse, a ressaca não permitiria.
Contudo, na manhã seguinte, Aline instalou a tão sonhada porta de Oscar. Em seguida, esperou atentamente para ver o movimento do mesmo. Ela sabia que as idas e vindas do seu vizinho atiçavam o jovem cão. Sendo assim, às oito da manhã, escutou-se o barulho de um molho de chaves. Oscar correu e, pela primeira vez, saltou através da porta.
Jornal? Não tinha. Aline somente assinava revistas de tricô e, ainda assim, retirava-as direto com o zelador. No entanto, certa imagem rodeava os pensamentos do animal. Oscar foi expulso do prédio após morder, não uma, mas três vezes, as pernas do vizinho. Pegou o jornaleiro em vez do jornal.