Aos 40 anos, Beto? – balbuciou sua esposa em tom sarcástico quando Alberto afirmou, de peito estufado, em uma reunião de família, que começaria a correr e que, no final do ano, disputaria a corrida de São Silvestre.
Como de praxe, fez-se um silêncio. Em seguida, todos voltaram a seus afazeres sem a mínima atenção. Sua mãe, senhora simples e de elegância ímpar, aos 80 anos, mirava-o, de sua cadeira de rodas, com o mesmo olhar de reprovação que a acompanhara por décadas.
As promessas anuais de Alberto Caeiro já eram famosas e, ao contrário do homônimo, poeta simples, cuja alma era envolta pela natureza, nosso Caeiro era opulento e adorava repetir como mandara cimentar metade de seu sítio no interior de São Paulo para não sujar seus carros de barro.
Sendo assim, “mais uma promessa vazia…” cochicharam os familiares. Em voz baixa, claro, pois os churrascos da família eram organizados justamente pelo Beto.
No dia seguinte, em uma loja de artigos esportivos, Alberto comprou o tênis que, teoricamente – fez questão de ressaltar a esposa -, o acompanharia nos próximos meses. Ao contrário de seu gosto requintado, aquele era preto com riscos em verde. Nada de mais. Também não possuía molas à mostra nem era do tipo profissional. De forma estranha, encaixava-se bem nos seus pés.
Na primeira semana, Caeiro caminhava em um parque próximo de casa. Eram quarenta e cinco minutos em passos lentos e quinze de um “trote” não muito promissor. Com sua idade, não se esperava muito. A mãe, que morava no apartamento ao lado, encostava-se na janela para observar as belezas do parque e, ao mesmo tempo, seu filho.
A turma de corredores noturnos descansava embaixo de uma árvore frondosa e papeava até altas horas. Alberto, ao contrário, recostava-se em um pequeno Café de esquina e vez ou outra escutava as conversas de algum enfadonho grupo de executivos. Durante duas semanas, o treino foi o mesmo, de final solitário.
Contudo, no início da terceira semana, Amélia reparara naquele preguiçoso estranho que terminava sua segunda volta no parque enquanto os demais já completavam sua quinta. Era difícil não perceber que Beto realmente não sabia o que estava fazendo. O mesmo considerava caro pagar um personal trainer para algo que ele dizia ser intrínseco ao ser humano, isto é, correr ou, no seu pensamento, fugir. Por consequência, a jovem resolveu convidá-lo a correr em sua companhia.
Àqueles que acreditam que nosso protagonista aceitara o convite em face da beleza da jovem, enganam-se. Beirava aos 25 anos, loira, olhos castanhos, óculos da moda, mas, nada além disso. A esposa de Beto, Cristina, ao vê-la, não se sentiu confrontada. Talvez contribuiu o fato de Amélia sempre voltar de carona com uma amiga de infância. Enfim, não era a mais atraente.
De qualquer forma, Amélia despertara em Beto um senso de disciplina incomum. O “trote” desanimado transformou-se em um conjunto de passadas rápidas. A corrida ganhava ritmo e terreno. Para quem não suportaria essa rotina por um mês, Caeiro comemorou os três meses em que separara três dias da semana para se exercitar. O café solitário transformou-se em bate-papos informais sobre televisão e filmes clássicos, uma das paixões de Amélia ao lado de pizzas e cervejas artesanais. Em um dos encontros ela mostrou uma foto, não tão antiga, na qual se encontrava jogada no sofá ao lado de seu cão, o qual parecia um pequeno bicho de pelúcia frente ao tamanho da jovem.
No fim, chegara o grande dia. Beto alongou-se, beijou a esposa e se preparou para a largada. Não almejava terminar a o percurso da São Silvestre, mas também não queria terminar entre os últimos. Temia aproximar-se da linha de chegada e somente encontrar garis recolhendo o lixo acumulado.
No entanto, arrastando-se ao lado da já considerada velha turma da corrida, Alberto Caeiro, com uma rara simplicidade digna do heterônimo de Fernando Pessoa, ultrapassou a linha de chegada, beijou novamente a esposa e deitou-se em um gramado próximo.
Em primeiro lugar, pensou na surpresa dos familiares ao saber que finalmente havia cumprido uma promessa feita. Confrontaría-os com um sorriso malicioso. Contudo, mesmo o opulento Beto percebera como as mudanças fazem bem e que, muitas vezes, não se consegue atingi-las sozinho.
Continuou, dessa forma, a correr. E sua mãe, que o vira normalmente à distância, começou a descer quase todos os dias, munida de sua cadeira de rodas e de um recente bom-humor, para vê-lo se exercitar.